Figura de Transição: o poder de mudar gerações, de Paulo Kretly

  Como romper padrões negativos e promover alterações benéficas
Em entrevista a Intermanagers, Paulo Kretly, que acaba de lançar sua obra Figura de Transição: o poder de mudar gerações, nos revela as características dessas pessoas que fazem a diferença.

Quebrar ciclos viciosos e negativos –tanto na vida pessoal quanto na profissional– não é uma tarefa fácil. Mas é exatamente diante das circunstâncias mais difíceis da vida que encontramos as chamadas figuras de transição. “Assim como gotas que, ao caírem sobre um lago, formam uma série de círculos concêntricos, propagando-se e alterando a superfície da água, as ações da figura de transição propagam-se pela força de seu exemplo positivo e provocam alterações benéficas em seu meio ambiente”, define Paulo Kretly, que acaba de lançar sua obra Figura de Transição: o poder de mudar gerações. Em entrevista a Intermanagers, Kretly nos revela as características dessas pessoas que fazem a diferença.

Intermanagers – Como o senhor define uma figura de transição?

Paulo Kretly – São pessoas coerentes, que buscam o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Mais que isso, são mais assertivas no trabalho e líderes independentemente da posição que ocupam. Mas, sobretudo, tem a capacidade de influenciar os outros não pelo uso do poder do cargo, mas por agirem segundo princípios alinhados aos valores.

Intermanagers – Como o senhor definiria princípios alinhados aos valores?

Paulo Kretly – Os princípios são sempre éticos, impessoais e objetivos. São comuns a diferentes culturas, povos, eras e religiões. Não se prestam a qualquer informação dúbia ou parcial, nem a negociações ou conchavos: eles são o que são. Princípios são eternos, irrefutáveis e atemporais. Já os valores são pessoais, subjetivos e contestáveis e podem, ou não, estar alinhados aos princípios. Eles não são necessariamente éticos, dependendo do caráter e da personalidade de quem os adota.

Intermanagers – O senhor poderia nos dar um exemplo?

Paulo Kretly – Gandhi era um homem cujos valores pessoais –não-violência, igualdade, liberdade– estavam alinhados aos princípios. Hitler, por outro lado, não possuía princípios, mas tinha seus valores pessoais: supremacia da raça ariana, a dominação pela força e a aniquilação de qualquer oposição.

Intermanagers – Mas, hoje em dia, neste mundo hipercompetivivo, vemos cada vez mais pessoas dizendo: “Mas fulano não segue princípio algum e veja só: está rico e tem sucesso”.

Paulo Kretly – A riqueza material não é a única medida do sucesso. Não são poucas as pessoas ricas e inescrupulosas que são lembradas não pela sua fortuna, mas pelo mal que causaram ao próximo, por sua ganância sem limites, por sua falta de ética.

Além disso, o legado que deixaram para seus familiares, muitas vezes, foi desastroso. Além dos milhões herdados, seus filhos, netos e bisnetos herdaram também uma família desestruturada que não raro se traduz em casamentos desfeitos, envolvimento com drogas e bebidas, longas brigas judiciais. Por quê? Porque essas pessoas herdaram dinheiro, mas não o bem maior que se pode almejar: valores baseados em princípios.

Claro que não podemos deixar de dizer que se ater aos princípios está cada vez mais difícil neste mundo. Afinal, em nosso dia-a-dia, somos constantemente convidados a negligenciá-los –seja por comodismo ou pela ilusória tentação de obtermos alguma vantagem imediata. Planta-se em nossa mente a máxima: “Se os outros estão fazendo e se dando bem, por que não fazer?” Acontece que quando baseamos nossa vida apenas em valores, que são individuais e com o direito de escolha, também é preciso lembrar que podemos até escolher o que fazer, mas a conseqüência não. Até mesmo porque a conseqüência está respaldada em princípios.

Intermanagers – Como podemos transferir sua teoria para a prática dentro de uma empresa?

Paulo Kretly – No livro Figura de Transição, eu desafio o leitor a basear seus valores em princípios porque a escolha baseada em princípios traz o resultado previsível. Numa empresa, podemos ter como valores: trabalho duro, dedicação, honestidade e resultados. Como conseqüência, por termos isso alinhado aos princípios, teremos: uma pessoa que inspira confiança e que provavelmente ganhará uma promoção. Os dirigentes da empresa reconhecerão, mais cedo ou mais tarde, que essa pessoa pode ficar numa hora de aperto e apresentar bons resultados.

Intermanagers – Mas existem pessoas que agem segundo seus valores alinhados aos princípios e ainda não alcançaram uma promoção ou até mesmo o sucesso. Ao contrário, até já perderam o emprego por terem agido desta forma. O que o senhor tem a nos dizer?

Paulo Kretly – Ter uma visão imediatista é o grande problema. Quando falamos sobre "agir conforme seus valores baseados em princípios”, precisamos ter claro em nossa mente o que chamo de performance superior sustentável. A figura de transição não é um exemplo porque é perfeita, mas sim porque não permite que os deslizes aos quais estamos todos sujeitos se transformem em um padrão, nem deixa que as exceções se transformem em regra.

Intermanagers – Um exemplo?

Paulo Kretly – Quando um piloto de avião aciona o piloto-automático, ele precisa permanecer o tempo todo atento aos instrumentos de vôo. Mesmo que a aeronave esteja sendo conduzida de forma automática, há fatores que podem, pouco a pouco, desviá-la de seu rumo: ventanias, nuvens carregadas e outros fatores atmosféricos. Ciente disso, o piloto observa e faz os ajustes necessários para corrigir a rota e certificar-se de que o avião chegará em segurança ao destino certo.

É exatamente isso que a figura de transição faz em relação às suas próprias ações e atitudes, pois mesmo que cometa eventuais deslizes não será por isso que será lembrada.

Intermanagers – A figura de transição então encara erros como desvios de rotas a serem corrigidos?

Paulo Kretly – Sim. A figura de transição consegue alinhar seus sentimentos, pensamentos, valores, discurso e atitudes em um todo coeso. Ela é uma pessoa coerente, não porque nunca tenha tido momentos de incoerência, mas porque não permite que a incoerência se transforme numa norma. É assim que se torna um exemplo, pois está sempre atuando de dentro para fora, ela não usa máscaras. Ou seja, ela aplica os princípios a si mesma antes de pedir aos outros que vivam de acordo com eles.

Intermanagers – Por isso, é fonte de inspiração?

Paulo Kretly – Sim. O único motivo pelo qual inspira mudanças é porque ela própria já se transformou nessas mudanças.Ou, como diz Gandhi, ela se torna “a própria mudança que deseja ver no mundo”.

Intermanagers – Como se tornar uma figura de transição?

Paulo Kretly – O grande trunfo da figura de transição é carregar o clima dentro dela, ou seja, ter o seu próprio clima. Você decide que tipo de humor quer ter, o outro não pode ter o poder de interferir no seu humor. Além disso, é importante desenvolver:

  • Visão: onde eu quero chegar? O que quero ser daqui a 15 anos?
  • Valores e atitudes, baseados em princípios, alinhados.
  • Constância: ter constância para chegar até um ponto e ser constante nos seus “fazeres”, trabalhando de maneira disciplinada.
  • Disciplina: planejar, organizar-se. A sorte é o encontro da preparação com a oportunidade. De nada adianta a oportunidade, quando não se está preparado. Para isso, é fundamental ter disciplina, planejar, priorizar diariamente, semanalmente e também no longo prazo. Uma pessoa bem-sucedida é aquela que teve dias bem-sucedidos.
  • Influência: ter influência sobre as outras pessoas para que se possa ter a receptividade. Em primeiro lugar, dê o exemplo. Daí, a pessoa adquire confiança e você obtém a receptividade pela capacidade de influenciá-la e não porque ocupa um cargo hierárquico maior.

    Intermanagers – O senhor é uma figura de transição?

    Paulo Kretly – É o outro quem detecta uma pessoa como figura de transição. Aliás, um dos grandes atributos da figura de transição é a humildade e a capacidade de estar sempre à disposição do outro.

    Intermanagers – E quem o senhor apontaria como figura de transição?

    Paulo Kretly – Um surfista do Guarujá que, aos 14 anos, perdeu uma das pernas. O sonho dele era ser surfista profissional. Além da fisioterapia, ele fez muitos exercícios para aprender a surfar com uma perna só. E conseguiu. Além dele e dos que cito em meu livro, destaco: João Paulo II, Lars Grael e minha mãe –a grande figura de transição em minha vida.

    Intermanagers – O senhor nos deu exemplos de pessoas que, além de superarem a si mesmas, não se deixando vencer à primeira intempérie, foram capazes de perdoar.

    Paulo Kretly – Um dos grandes atributos da figura de transição é exatamente a capacidade de perdoar e conservar sua rota.

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    Entrevista concedida a Lílian Féres, gerente de conteúdo da HSM

    link: http://www.intermanagers.com.br/ver/notascab.jsp?id=2699

     

     

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